A principal
função de Tomazoni no castelo era ficar na amurada esperando as pedras da
catapulta.
A posição era fundamental, deveria ser em ângulo reto com a
trajetória da bala. Então ele esperava, esperava, esperava, e quando faltavam
poucos metros pra atingir deveria gritar
MERCADO!, ou CASA DE ARMAS!, ou PÁTIO!, e se jogava pro lado.
Tomazoni era um
anão.
Talvez esse detalhe não tenha crescidas importâncias, porém, do ponto de vista militar, ajudava a evitar acidentes e perdas mais graves para a infantaria do duque de Curitizábria, agregado do Ducado de Milano, parceiro comercial de Ferrara, obediente ao Papado de Roma, colega da Córsega no torneiro de truco e testemunha dos sicilianos no rebaixamento da Juventus em 06. Ano passado uma bala tirou o dedo médio de Tomazoni, mas isso foi tratado com desdém, já que era um dedinho insignificante. Bateu um vento forte nas costas e desviou a trajetória da pedra.
Levou umas horas pra tirá-la de cima de Tomazoni, coitado, mas deu tudo certo. E isso trouxe ideias pro
exército inimigo...
Um tal de Da
Vinci foi contratado a peso de ouro pelos venezianos (aqueles anfíbios!), e inventou catapultas mais modernas, o que
fez Tomazoni prestar queixa no Sindicato. Na primeira batalha, gritou GALINHEIRO e caiu na capela da plebe. Na segunda, a pedra lhe tirou a orelha direita e parte do rosto. CORNO, VIADO, gritava Tomazoni, sacudindo a única mão que ainda lhe restava.
Da colina, Da Vinci dava risadinhas. As pedras viravam jabulanis nas catapultas
de Da Vinci, eram quase teleguiadas. Uma vez Tomazoni correu por toda a
amurada, e a pedra ia atrás, dando petelecos na única orelha. Claro que o
Sindicato não acreditou nessa história, e negou a demissão. AGORA É PESSOAL,
gritou o pobre anão. Quando só lhe restava o tronco, o pescoço e parte da
cabeça, Tomazoni chamou sua prima, uma gorda de cabelo seboso. Ela veio,
pegou-o no colo, e encheu de beijinhos. Tomazoni deu o endereço de Da Vinci e
disse VAI LÁ E PEDE UM AUTO-RETRATO. O cientista inimigo nunca mais deu o ar da
graça no campo de batalha. Seu exército, burro, fazia as pedras caírem na
própria cavalaria e até no lanceiro de Covigo. Tomazoni era o herói. O povo o pegava no
pátio, rastejando, e jogava para o alto, com um Tomazoni cheio de sorrisos.
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