quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Relatos da Corte nº 05

   Então, certa feita, apareceu um maluco no castelo dizendo querer unificar toda a Itáglia. Tomazoni, nosso anão-herói de sabedoria piemôntica, desconfia, coça a nuca soltando um "cazzo" baixinho. O excêntrico tinha a voz do Thiago Lacerda, os olhos do Thiago Lacerda, o nariz do Thiago Lacerda, e quando uma brisa esvoaçava sua longa cabeleira, ele abria um sorriso colgate para um retratista inexistente, olhava para trás em movimento slow-motion e dizia ANDIAMO, ANITA, ANDIAMO! Uma cara alegre, no más.
   Tomazoni, assessor especial para assuntos políticos deveras pós-modernos, alerta o duque com a altiva sugestão de trazê-lo diante de toda a corte reunida. Deixe o maluco falar, ó altíssimo! (o duque media um e sessenta e cinco).
   O modo como o viajante chegou a Curitizábria levantou suspeita: de navio. Mas acontece que Curitizábria não tinha mar, nem lagoa, tampouco rio ou qualquer arroio de merda. O navio veio puxado por uma manada de bois, cavalos, jumentos e capivaras. 
   Diante de toda a corte reunida, nosso herói-anão questiona o visitante. Como assim, unificar? E o que será das guerras, das traições, conchavos, e o roteiro do Game of Thrones? Nada mais belo do que o brilho prateado de uma espada. Sem saber o que responder, o rapaz com orelha de Thiago Lacerda, queixo de Thiago Lacerda, barba de Thiago Lacerda, cujo cabelo ondula ao menor sinal daquela corrente nordeste que sempre sopra no salão do castelo, abre um sorriso Gessy para uma foto deveras longe de ser inventada e vira a cabeça em câmera-lenta sonorizada pelo técnico da séria “A Mulher Biônica”, e diz ANDIAMO, ANITA, ANDIAMO!
   Tomazoni sussurra no ouvido do duque que aquele barco parado lá fora o fez lembrar a cena final da peça Tróia, aquela do cavalo de madeira. O rascruvinhador, raposa velha e astuta, querendo mostrar seus conhecimentos literários, pergunta: de qual vos dizeis, meu nobre anão? Do livro ou da peça? Pois o livro veio bem antes, dos tempos gregos, e narra as aventuras de Helena, Aquiles, e de Ulisses! Não conheceis tal tomo?, e dá um sorrisinho mal escovado pela Flex-A Carioca. Tomazoni não perde o rebolado: Ora, ora, falo da peça! Nem sabia que haviam feito um livro da peça! Bando de plagiadores. E vós só podeis estar falando daquele livro estúpido, que narra as vinte e quatro horas de um saxão bêbado! Fique sabendo que Molly é o nome de uma puta em Firenze que já deu pra metade da cidade, e a outra metade só não comeu porque é mulher, criança ou afeminado. Fluxos de consciência o levem, e cale a boca. Tomazoni atira jujubas no rascruvinhador, e esse as recebe de boca aberta.
   Voltando ao rapaz idealista, este já tinha dado no pé. Mas foi recapturado. E teve o dedinho do pé cortado por conspiração.

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