terça-feira, 6 de novembro de 2012

Pedras Vermelhas não Estragam o Salto Agulha


E, fechando o manual do carro novo, recém adquirido, vi que estava em Marte. Não me incomodava, junto ao estômago, as imprecações dirigidas ao botão do ar-condicionado, que teimava em não refrescar. Havia comido uma maçã e isso, segundo Jó, era bom. Talvez devesse ler melhor a página trinta, onde dizia que o motor deveria estar ligado. Girar da chave, primeiras tentativas, e nada. Bancos macios, painel com cheiro plástico, um rádio que não sintonizava Michel Teló, benza Ares! Motores a ignição não funcionam num planeta onde impera os frutos dióxidos atmosféricos de uma civilização altamente industrial movida a combustível fóssil, eu deveria ter aprendido isso no último Enem. Agora era tudo pó vermelho, já que a crise econômica chegou aqui via robô Opportunity, e o Eiki Batista não tinha nenhuma  culpa nisso, nem a Andrade Gutierrez.  Abri uma lata de guaraná fruki, e a mesma  estava quente.
Tons cobres, terra vermelha como a zona rural de Jaguapitã, e não estou cometendo um eco de linguagem. Rapidamente pensei numa sandália prata com strass, ainda que o prata não esteja na moda (e não tente convencer uma curitibana a não usar prata, nunca!). Uma Barbarella vestindo maiô de couro preto, cabelo alisado penteado para trás, segurando uma pistola com silenciador, fazendo beicinho, se é que o robô Spirit ainda não tenha coletado esta amostra e dissecado para pesquisas. Um enxame de bactérias comedoras de arsênico liberou-me conjecturas sobre o pagamento (ou não) do IPVA. Em qual banco? Qual o final da placa? Nem placa tinha! A vendedora da concessionária  perguntou Que letras você quer? Nunca pensei em letras para a placa. Se eu fosse gay poderia ser GAY, se fosse cristão poderia ser FEE, ou com uma BMW nas mãos seria BMV (me lembrei de quando o brasileiro não conhecia a letra W e dizia “dobrevê”, isso foi décadas antes do advento do Windows). FUK. Ao invés de me oferecer letras, eu poderia ganhar um desconto, um cooler, um guarda-sol de lona grossa anti raios UVA/UVB. O robô Spirit fotografaria o auto sem placa andando pelos Valles e mandaria direto pro DETRAN, via fax. Canaletas já existiam, só faltavam as ciclovias e os biarticulados. Minha vó falava dobrevê.
Abri outra lata de guaraná polar, estava ainda mais quente. Morreria sufocado. Caso abrisse a janela, mais sufocado ainda. CD do Carrapicho tocando. Vermelhou, o curral. Bimbolar os dedos no guidón. Boi bandido, boi caprichoso. Vaca foi pro brejo, atolou. Massagem facial no espelho retrovisor  (técnica ensinada pela Xuxa no Esquenta). Respirar o resquício de oxigênio do carpete. Sentir uma ponta de culpa, já que vou perder mais uma sessão de terapia, e não há shopping center que cure a insignificância de nascer e puxar a descarga do vaso. Pense como um marciano, aja como um marciano. O cobre nunca sai da passarela do fashion Rio. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário