E, fechando o manual do carro
novo, recém adquirido, vi que estava em Marte. Não me incomodava, junto ao estômago, as
imprecações dirigidas ao botão do ar-condicionado, que teimava em não
refrescar. Havia comido uma maçã e isso, segundo Jó, era bom. Talvez devesse ler melhor a página trinta, onde dizia que o motor
deveria estar ligado. Girar da chave, primeiras tentativas, e nada. Bancos macios, painel com cheiro plástico, um rádio que não sintonizava Michel Teló, benza Ares! Motores a
ignição não funcionam num planeta onde impera os frutos dióxidos atmosféricos de
uma civilização altamente industrial movida a combustível fóssil, eu deveria ter aprendido isso no último Enem. Agora era tudo pó vermelho, já que a crise econômica chegou aqui via robô Opportunity, e o Eiki Batista não tinha nenhuma culpa nisso, nem a Andrade Gutierrez. Abri uma lata
de guaraná fruki, e a mesma estava
quente.
Tons cobres, terra vermelha como
a zona rural de Jaguapitã, e não estou cometendo um eco de linguagem. Rapidamente
pensei numa sandália prata com strass, ainda que o prata não esteja na moda (e
não tente convencer uma curitibana a não usar prata, nunca!). Uma Barbarella vestindo maiô de couro preto, cabelo alisado penteado para trás, segurando uma pistola com
silenciador, fazendo beicinho, se é que o robô Spirit ainda não tenha coletado
esta amostra e dissecado para pesquisas. Um enxame de bactérias comedoras de
arsênico liberou-me conjecturas sobre o pagamento (ou não) do IPVA. Em qual banco? Qual o final da placa? Nem placa
tinha! A vendedora da concessionária perguntou Que letras você quer? Nunca pensei
em letras para a placa. Se eu fosse gay poderia ser GAY, se fosse cristão
poderia ser FEE, ou com uma BMW nas mãos seria BMV (me lembrei de quando o
brasileiro não conhecia a letra W e dizia “dobrevê”, isso foi décadas antes do
advento do Windows). FUK. Ao invés de me oferecer letras, eu poderia ganhar um
desconto, um cooler, um guarda-sol de lona grossa anti raios UVA/UVB. O robô Spirit fotografaria o auto sem placa andando pelos
Valles e mandaria direto pro DETRAN, via fax. Canaletas já existiam, só faltavam as ciclovias e os biarticulados. Minha vó falava dobrevê.
Abri outra lata de guaraná
polar, estava ainda mais quente. Morreria sufocado. Caso abrisse a janela, mais
sufocado ainda. CD do Carrapicho tocando. Vermelhou, o curral. Bimbolar os dedos no guidón. Boi bandido, boi caprichoso. Vaca foi pro brejo, atolou. Massagem facial no espelho retrovisor (técnica ensinada pela Xuxa no Esquenta). Respirar o resquício de oxigênio do carpete. Sentir uma ponta de culpa, já que vou perder mais uma sessão de terapia, e não há shopping center que cure a insignificância de nascer e puxar a descarga do vaso. Pense como um marciano, aja como um marciano. O cobre nunca sai
da passarela do fashion Rio.
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