domingo, 18 de janeiro de 2015

O Abandono de Jumentos nas Estradas do Paraná

   No Paraná, a população inteira de uma espécie tem causado transtornos para quem circula pelas estradas deste agrícola estado. São os jumentos, animais usados para carga.
   Originalmente habitante da região, a população foi-se cruzando com outras subespécies do mundo ao longo da história, como o jumento-selvagem-sírio (extinto), o burro alemão, a mula-ucraniana e o onagro de Hekinan.
   O rincho é o discurso mais usado pelo jumento. Os do alto da serra, onde a população elevada já virou um problema para a logística nacional do eixo norte-sul, pois habita justamente a principal artéria de circulação, é mais calado, porém não menos emburrado consigo próprio e com os outros burros seus irmãos. À procura de fartura, eles transitam pelas vias em busca de alimentos e outras necessidades que só os jumentos conhecem. Essas necessidades obscuras e mal-entendidas já virou tese de doutorado de um estudante gaúcho, que tenta, sem sucesso, entender a mentalidade e o sistema de pensamento do jumento paranaense.
   Muitos ainda, talvez por revolta resignada, empacam no meio da estrada, murrinhando de modo selvagem, não saindo do lugar. Talvez por falta de algo que, para nós, é desconhecido. O número de acidentes, segundo a PRF, só vem aumentando nesses trechos.
   Hoje, com a modernidade de ideias e a facilidade das máquinas, o jumento paranaense virou um empecilho para o desenvolvimento. Já foi-se o tempo em que se dizia "sem jumento, não há Paraná!". As coisas progrediram, para desgosto dos mais conservadores, que continuam gritando "sem jumento, não há Paraná!". Soja, fumo, cana, não vestem mais o lombo desse infeliz animal. A verdade tem que ser dita.
   Vamos ajudar essa espécie, com soluções humanas. Recondicionamento, reposicionamento, há vários projetos para solucionar esse problema e evitar os criminosos abates clandestinos. Antes de tudo, paciência. Respeito. Já dizia o saudoso Luiz Gonzaga na música "Apologia ao Jumento":

   Jumento meu irmão eu reconheço teu valor...
   Tu és um patriota, tu és um grande brasileiro...
  Eu to aqui jumento, pra reconhecer o teu valor meu irmão...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

o Christmas do noel

   Obrigado, meu velho, pela visão deslumbrante que tive: 2 pessoas se esbofetiando no trânsito, enquanto as caixas de som ecoam o natal da Simone. Alegria, é chegado o tempo de paz, irmãos.
   Obrigado, meu bom velhinho, pela quantidade de gente no supermercado, comprando, escolhendo, chama o vô!, camisa azul, bombacha e alpargata, de chapéu, tá perdido olhando o preço da batata marrom, o preço da batata branca, o preço da batata.
   Obrigado, meu bom velho, pelo calor, pelo movimento, pelas filas de carros e filas de carrinhos e filas de cavalos e filas de gado, os mugidos e buzinas, as fotos do natal luz. O homem parado no meio da rua, erguendo a câmera, boca aberta, dois minutos para tirar a foto do anjo de LED no poste, sua trombeta anunciando, dois minutos e meio para tirar a foto do anjo enquanto os carros estão parados, buzinando, a lua é crescente e fina, não reparam, três minutos e câmera erguida para tirar a foto, a melhor foto, a foto, vâmo, Chacó! Che-Êga de danta foto! isso tu nem enxerga tepois... Álo, vâmo, uma veiz! Schnell! os garo chá tão tudo buzinando! E Jacó tira a foto, de boca aberta.
   Obrigado, meu bom velho, por mais um ano de Simone tocando nos alto-falantes do mercado. E nos alto-falantes do poste do centro. E na loja que a loirinha foi atenciosa pra vender a regata na véspera, que horas a gente sai hoje? Seis horas, já falei, responde a gerente. Sempre tem alguém para comprar mais algo às seis horas, mesmo ao som do din-don din-don din-don da Simone que bate o sino da matriz pro papai-noel trazer o presente para a vovó e o vovô. Ainda que seja uma regata.
  Obrigado, meu bom velho, pelo supermercado novo na cidade. Agora são mais 3 supermercados novos na cidade. Tudo coisa dessa prefeita nova que liberou novos alvarás, pois antes só dois dominavam a cidade. Tudo coisa dessa prefeita nova da cidade, shuátz, ainda por cima, tú liba gôt! O segurança é shuátz, isso é o certo, impõe respeito nos malandros, e veio do Haiti, mas agora uma prefeita ser shuátz?! e ainda por cima mulher?! isso non é o certo! por isso tanto mercado novo! por isso tanta chente nesse mercado novo gastando o que nem pode, e nem caderno tem nos caixa pra pedi pra anotá e pagá depois em chanêro, depois do IPVA do auto, isso non é o certo. Chama o vô! e o vô de chapéu tá perdido olhando o preço da batata branca e da batata preta e pensando como ele, plantador de batata, ganha tão pouco pela batata plantada.
   Obrigado, meu bom velho, que chegou o primo lá de Paraná, a irmã lá de Santa Catarina, a coisa não tá fácil: agarraram tudo e foram embora. Só deixaram o sofá. Hoje de noite vamos colocar os pingos nos Í's, a mãe tá doente e nem pra ajudar tu pode. Nem pra ajudar na louça tu pode. Nem pra segurar a língua na hora de comentar o sal no arroz tu pode. Vamos todos apontar nossos dedos, vamos todos quebrar copos, gritar, gritar, pois ninguém nos escuta, vamos todos encher a cara pra aguentar gente nossa que não se aguenta sóbrio, e pisar fundo, ninguém aguenta mais um ano desse jeito. Ninguém aguenta mais um ano desse jeito. Ninguém aguenta mais do mesmo desse jeito.
      Obrigado, meu velhinho, o lixeiro passa hoje. 
   Obrigado, meu bom velho, que nem de aniversário está: a trombeta está na boca do anjo de LED. Só falta o assopro, João Revelações. O dia do assopro virá, ninguém fica tanto tempo sendo empurrado pela cantora sem enlouquecer um dia. As ruas estão cheias, como nunca dantes. A cidade cresceu, como nunca dantes. E o ano de 2014 foi ruim. 
   Obrigado, meu bom velho, não sei por quê, hoje nem ao menos é seu dia.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Retóricas do Subsolo

 Eu me animo junto à excitação dos sabiás quando sobre o monte de terra recém movido, dentro da valeta que receberá os canos e o sumidouro, ciscando e olhando, atentos, algo que se move.
 Pois as minhocas não tem culpa.
 O que o homem abriu, a minhoca, descoberta, acaba vítima. Teve sua terra cortada à maquina, as aves aproveitam. O sabiá vê ali uma grande oportunidade de enriquecimento, pouco preocupado com a finalidade da valeta. Enriquecimento corporal, sobrevivência à esses tempos químicos, barriga cheia, (um médico disse que não somos passarinhos pra comer tanta granola), uma picanha, quem sabe?, um belo filé com gosto de terra. A minhoca cobre-se de desespero agora desnuda, arejada, inquieta.
 Eu desconheço o gosto da minhoca, pergunte à um excêntrico. O sabiá mastiga primeiro sua cabeça (ou rabo, tampouco sei sobre frentes e versos deste ser), o que lhe dificulta o equilíbrio e lhe causa uma leve labirintite. Depois, engole. Mas antes, antes de engolir, antes, ainda, ela treme antes de engolir, e nossa vontade de comer nissin lámem talvez seja a projeção, no incosciente, de um desejo oriental de se saborear minhoca, e aqui falo de humanos, pois desconheço o inconsciente coletivo dos sabiás.
 Escargots e foie gras, isso só em Paris (com uma leve degustação antes do embarque). Outros quinhentos. O ganso é alimentado com um excedente de ração, muita ração, bastante ração goela abaixo, o ganso não consegue nem pensar de tanta ração por sua boca, por sua garganta com ração, uma quantidade enorme de ração, e depois CRAU! no seu fígado. Doa o seu fígado, comem o seu figado, esses franceses. Fotos, selfies, abracinhos da mesmice paraguaia. É preciso ser franqueado em algum setor beneficiado.
 Por enquanto, as minhocas. E o canto do sabiá, que inaugura a manhã e, surpresa!, a terra se abre. No monte preto, o desjejum.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Drops da Infantaria Encurtecida nº 07

  Tomazoni parte em uma missão de salvamento e após escalar a torre mais alta do castelo encontra a princesa, gorda, sorridente, tricotando.
  Polainas.
  Para os tornozelos, pois começará na academia na terça de manhã. O seu personal trainer está sentado num canto, tomando uma xícara de chá com o dedo mindinho levantado. Ele abana um sorrisinho indiscreto com sua mãozinha. Já fez a inscrição, a tatuagem, o botox, o silicone, o exame preliminar, o teste de cantada, o fone de ouvido, a capa do Ai-fone, as unhas de oncinha, a outra tatuagem, o cabelo amarrado, o tênis importado, a sobrancelha Jolly, o bigodinho brazillian de Hitler, o perfume no ombro, a calça justa, a blusa justa, a outra blusa sobreposta justa, tatuagem no punho, e faltavam, obviamente, as polainas. Um alquimista entra com uma chávena de chá e se retira, receoso. Ratos roem a roupa do rei. Tomazoni nervoseia, pois os alquimistas são discretos e silenciosos (moram bem longe dos homens).
Volte na quarta, querido, e Tomazoni se despede, pulando pela janela.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A Narrativa Roussef

  A presidente Dilma não faz literatura existencialista. Não cria personagens em conflito morando em grandes cidades, habitando apartamentos vazios e áridos pela solidão politana.
  Com a chegada dos médicos cubanos, a presidente Dilma cria um enredo provocativo, com heróis, supostos vilões vestindo-se de heróis, respostas e aventuras.
  Existe uma crise. Um ato vai tentar corrigir essa crise. A burguesia "bem-pensante" se voltará contra esse ato, em respeito à classe dos médicos. A classe reacionária usará seus instrumentos para manipular nossa admirável classe média e colocar na sua cabeça que o ato é falho, inadmissível e deplorável. A classe média, em eterno retorno, será manobrada pela sua TV das 21 horas, já que um médico descente tem que ter pele branca, cabelo branco, macho e homofóbico (ou seja, deve ser o Antônio Fagundes). O escritora inova aqui, definindo o personagem como um grupo de pessoas, não apenas um (sem falar nos VÂNDALOS, que entrará(ão) também na história).
  O médico cubano é o "professor Langdon" de O CÓDIGO DA VINCI (vou usar esse exemplo tosco, pois de nada vai adiantar eu citar Raskolnikov ou Riobaldo, já que a nossa classe média gosta de Dan Brown e Paulo Coelho). Assim como Langdon vai quebrar a moral e os bons costumes, dizendo que Jesus trepou com uma biscate e teve um filho, o Médico Cubano vai tentar quebrar as acusações com dedicação e trabalho. Não sobrarão atentados, envenenamento, clima ruim e falsas acusações nos postos de saúde, todos perpetrados, claro, por Antônio Fagundes, o fazendeiro-mor do Sírio-Libanês. Os planos venderão mais, o SUS será escrachado e o Fluminense ficará feliz com o aumento da verba do seu principal patrocinador.
  Uns chamarão de folhetim, outros chamarão de romance histórico, a verdade é que a narrativa Roussef está longe de acabar. Ou o leitor se confraterniza com o herói carismático que luta pelos plebeus, ou o expulsará de volta à sua ilha. 
  Outra visão tosca seria uma analogia com o estruturalismo. O centro da narrativa é o Médico Cubano, somente os atos do Médico Cubano, seus erros, seus acertos, e nada mais! Nada de Antônio Fagundes manobrando intrigas, nada de jornalismo reacionário, nada de politização (politização? o que tem a ver isso nesse enredo todo?). Mas deixe Umberto Eco com sua fuça em cima da obra e vamos olhar em volta. Vamos nos informar mais, vamos tentar entender a narrativa Roussef. 
  Ou, talvez, visitar um posto de saúde. E estudar medicina preventiva. Ver o contexto histórico-político-moral de uma sociedade é recomendado pela bula antes de ler a obra.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Morro Cantagalo e Mais Além - A Segunda Parte

   Final de 2002. Os atletas de cristo de 99 já eram história. E a limpa feita no time da Azenha surtira efeito: conquista da Copa do Brasil em 2001, uma quase final de Libertadores em 2002 (derrota nos pênaltis para o Olímpia), um time azeitado. O centenário do clube seria comemorado com louros e faixas.
   Porém o Sobrenatural de Almeida, de caso com o lado negro da Força, preparava sua vingança contra a sacrossanta imagem do Cristo. Isso não ia ficar assim, não ia! Era preciso o dedo erguido aos céus, e comunista aqui que fosse pra Cuba! 
   O presidente do time da Azenha somava todos os encostos da Bahia para baixo, inclusive aquele forte lá do Morro Santa Tereza. Um pé de gelo. Incompetência, brigas, a quase queda em 2003 e o reveillon em Punta del Este trazendo as piores frentes frias da história azul.
    2004 e os Atletas de Cristo (agora com sede própria (Carandiru, pavilhão 7, fundos)) contra-atacam. Sim! Não fizeram nada, apenas pediram justiça divina. Exu enclausurado. Tonturas da direção, nebulosidade, 150 mil para contratações e os salários talvez, talvez, em dia. Mandinga. Galinha preta enterrada na Praça do Papa. Vodoo. Sim, vodoo também, pois chegou um atacante panamenho, ex-presidiário, chamado Garces, depois de ter esfaqueado a mulher. Foi preso agora em 2011, quando reagiu à tiros a voz de prisão. Esse tipo de elemento compunha o grupo naquele corrente ano. Outros supostos atletas  eram Tavarelli no gol (e a lembrança não te trás arrepios?); o panamenho Baloy; Saraiva; Cocito; Ratinho; Fábio Bilica; Zulu e Rico.
   [Adendo: Saraiva foi roubado do Inter e anunciado pelo pediatra Saul Berdichevski, então vice-de-futebol, como o novo Falcão. Fábio "Birita" tinha uma amante italiana, e essa mesma causou barraco em um dos treinos.  Cocito, posteriormente, ajudou a afundar outros times. Berdichevski, em outra pérola, disse que Luciano Ratinho era melhor do que um tal meia que atuava no co-irmão chamado Nilmar. Zulu não era um jogador camaronês.]
   Um trem sem rumo, sem comando. O presidente mais perdedor de toda a história do clube, quando assumiu, mandou às favas todos os empresários, dizendo que ia tratar diretamente com os atletas. Ele se regozijava afirmando que tinha o melhor site de clube de futebol do mundo e o melhor ônibus para levar a delegação.
  O ônibus, então. 
 Essa história me foi passada dois anos atrás, no bar do Farinha, arredores da zona sul de Viamão. Uma tarde quente, o pó cobria o horizonte. O indivíduo me contou toda a história da viagem do time à Curitiba, nas últimas rodadas do campeonato (derrota de 1x0 para o Paraná, e, momentos antes da partida ter início, segundo uma testemunha ocular, Pitbul tomava um chopp na Rua 24Hrs, ao lado do hotel, acompanhado de duas moças). Não vou entrar em detalhes sobre o que acontecia no idolatrado Trovão Azul, dito cujo ônibus de dois andares, mas a farra correu solta em todo o trajeto. Um dos roupeiros, incomodado com o barulho, foi tentar dormir na poltrona 36 e seus olhos viram dois dos atletas do time se masturbando mutuamente. O horror, o horror!!
  A queda, a vergonha, o fundo do poço. Até quis largar a crônica esportiva na época. Ser correspondente internacional, travar textos nos suplementos de cultura, qualquer coisa, qualquer coisa! Ah, pro diabos o time do meu coração. Não devemos misturar as paixões, dizia um antigo professor meu. Eu era voraz em meus comentários, até estampido de tiro escutava no meio da noite. Com dirigentes não se brinca. 
  Corria o 30 de outubro, contra o Palmeiras, longe de casa (nosso estádio, interditado). O zagueiro panamenho Baloy, amigo do pistoleiro Garcês, é expulso quando ganhávamos de 2x0. Faltando 10min pro fim, o gol de empate do Palmeiras, gol de mão. O goleiro tricolor reclama e é expulso também. Bêbado, Fábio Birita vai pro gol. Quatro jogadores palmeirenses estão impedidos aos 48min do segundo tempo, um deles faz gol. Derrota. Deus, então, sorri aliviado. A queda foi decretada no dia 28 de novembro.
  Os atletas de cristo respiraram fundo, a justiça havia sido feita.
  2005 e as renegociações. Um clube falido, quebrado. As forças do bem deveriam ser trazidas de volta. Uma troca de técnico (normal, normal...) e, na madrugada da primeira partida, chega o treinador do Caxias, campeão gaúcho. El Mano de Diós, a torcida sempre idolatrava essa baboseira platina. Jogo de portões fechados, no estádio do co-irmão, dava pra se escutar o grilo embaixo das traves.
 Mas vamos nos focar nas negociações. Deus, fazendo-se representado por seu advogado, dá sinais de retomada quando não dá o penalti no Tinga, expulsa o mesmo, e o Corinthians empata com o time do Beira-Rio em 1x1. O resultado deu o título ao time de São Jorge, deixando irritado o co-irmão. Pipocam foguetes na Azenha, e eu me lembro muito bem deste jogo, assistido lá no alto do Cantagalo.
    A decisão final entre Deus e a direção fica para o nervoso 26 de Novembro, mesma data da final do Campeonato Brasileiro da Série B, o jogo que decidiria o céu ou o inferno, a subida ou a alma no purgatório, num estádio que trazia no nome todas as paradas cardíacas em corações apaixonados: Estádio dos Aflitos. O representante do clube diz que a sua instituição é laica, e tenta medir forças com a Glória Divina. Não dá outra: pênalti para o Náutico. Aos 31min do primeiro tempo. O representante do clube apela, Deus concorda. Cobrança cobrada, bola na trave. A conversa prossegue. Segundo tempo, Deus começa a desistir. Escalona é expulso. Agora temos dez em campo. Nervosismo. A Divina Providência se levanta e quer abandonar as negociações. Pênalti para o Náutico. Um jogador é expulso. Agora nosso time tem 9. Alguns jogadores vêem a morte, os demônios. O pavor toma conta. Outro jogador é expulso. Agora são 8. Vinte minutos de tensão. Mandaram embora os atletas de cristo, agora sofram as consequências. Seriam mais alguns anos de inferno. Mais um expulso. 7. O representante ora. E adianta orar agora? Brincaram com a Divindade! E foi isso mesmo que aconteceu, eu sei, eu tenho a história na mão, com exclusividade. Deus volta e senta junto à mesa. O penalti é batido e o goleiro pega. Agora são 7 contra 11. Deus fala apenas uma coisa: Anderson. O jogador leva falta. Cobra, recebe, parte pra cima de um, dois, tres, e faz o gol. O jogo termina. Mais de seis milhoes de seres vestindo mantos azuis rezam. 
  O time nunca mais deixará de ser cristão. 
  Até porque não ter religião é coisa de comunista (e o comunismo é vermelho).

sábado, 6 de abril de 2013

Considerações sobre o poema na água

   Se é pra ser igual a todo mundo meu narrador vai ser eu mesmo, escritor-alter, com crise de identidade na metrópole vermífuga, diarreia existencialista borrando fraldas de mim mesmo só pra ser igual a todo mundo.
  E só pra ser igual a todo mundo vou citar Pessoa, Guimarães, Camus, e também vou falar do humor subsubsubliminar de Foster Wallace, a festa da lagosta, que transcende a realidade e, claro, Róff, Filipe Róff, assim eu saio um pouco do academicismo, pra citar caras modernos e ser mais igual a todo mundo.
   E só pra escrever como todo mundo eu, o narrador de mim mesmo (não o escritor-alter nem o escritor que seca a louça), em primeira pessoa (aquela tabelinha dos verbos, lembra?), vou usar recursos estilísticos de primeira grandeza, porque terceira dá bronze, e defecar-lhes-ei sobre vossas cabeças meu niilismo social auto-egocentrístico marxista, só pra mim ganhar cerveja no boteco descolado e comer umas gurias tatuadas com borboleta. Escreverei diálogos com dois pontos
   - travessão
entre vô e neto, discutindo banalidades e, caindo então, em assuntos etéreos, como tempo, bibelôs, alfazema e caturritas, dizendo muito em pequenos assuntos, depois virá um fluxo de consciência, analépse, uma prolépse, e dois bolinhos de soja (a conta, por favor!).
   [Ele era assim desde pequeno. Eu falava pra mãe botar ele na escolinha de futebol, até comprei chuteira! Disse que apertava... Bota o guri pra brincar na rua, bota o guri pra atirar com a funda, mas não! Vivia enfiado naqueles livro dele... Agora inventou essa de publicar. Pra mim, coisa de boiola.]
   Escreverei no meio desta praça entorpecida de humanos, eu mesmo e meu caderninho, eu mesmo no chão do apartamento vazio. O vazio, o vazio!
   Só pra ser igual a todo mundo vou criar extensos diálogos com o propósito de parir personagens polifônicos de múltiplas identidades,  axiológicos bakhtinianos, tão diferentes quanto um surfista, um filósofo, um coletor de resíduos e um pastor (todos votarão no FHC). Só pra ser igual a todo mundo viverei uma crise sem precedentes na história do meu apartamento universitário, bolorento das lágrimas derramadas pela menina que partiu, e escreverei, escrever-lhes-ei, contarei tudo como aconteceu, em primeira pessoa, frenético, o canudinho me servirá o nescau gelado.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Morro Cantagalo e mais além

Corria o ano de 1999. O time da Azenha sofria um natural processo de reformulação da equipe, após os gloriosos anos em que ganhara a Libertadores, duas Copas do Brasil e o campeonato brasileiro. Bons jogadores haviam saído, outros chegaram e, não aprovando, foram embora. Um, em especial, se tornaria grande craque, mas não é sobre esse personagem que vou falar. Poderes aquém à minha vontade exigem que a história seja contada sobre um novo ângulo. A memória deve ser perpetuada para que não se repita a desgraça no futuro.
A Providência quis escrever em linhas tortas a pena que não borrava a correta escrita.
Esta é a triste história que narra a queda. A não menos sensacionalista história que narra como os deuses do Olimpo, altíssimos em seu júbilo e poder, empurraram uma esquadra imortal nos desfiladeiros de Termópilas.
Voltamos para 1999. Brilhava um rapaz de pouca idade, com dribles desconcertantes e gols, muitos gols. Na partida final do torneio estadual, eu mesmo pulei o fosso que separa campo da torcida para carregá-lo nos braços, após a conquista do campeonato. O destino traçava novos troféus e glórias. Porém, chora Athena, chora Apolo e também o próprio Zeus. Quatro jogadores do grupo se autodenominavam “Atletas de Cristo”, sendo que este Cristo em questão era Jesus, o filho de Deus, também chamado Arquiteto do Universo, e não o treinador da equipe, que poderia se chamar Otacílio Cristo, portanto os jogadores seriam seus atletas, os “atletas do Otacílio”, nada mais lógico, ou mesmo poderia ser o presidente da agremiação, que, não menos estranho, poderia se chamar Luis Carlos Cristo, e, portanto, os jogadores, em respeito à hierarquia, se autodenominariam “atletas do presidente”, não. Cristo era Jesus. Ponto.
Tais “atletas de Cristo”, apesar de rezarem bastante (pois eu tinha acesso aos treinamentos e era comum à estes desportistas a exaltação de sua fé), não eram os melhores jogadores do Brasil (longe disso). Romário fazia gols e só abria os braços. O craque anteriormente citado cultuava um pandeiro, e louvava pagodes nas festas de comemoração. Nada mais válido aqui do que aquele velho lugar-comum de que “se isso adiantasse, o campeonato baiano terminava empatado”. E como eram ruins... Uvas! Perebas. Nenhum santo óleo do senhor (9,90 cada frasco, na época), nem tampouco longas sessões de descarrego (às sextas, a partir das 22 hrs) colocariam aqueles “pés de cristo” na forma, não acertariam seus passes, não colocaria a pelota na gaveta. Qualquer carrinho dado por estes sujeitos era uma guerra santa, qualquer bola perdida era “em nome do senhor”, mesmo que o erro causasse gol do adversário. E causava. E a maionese da tia Carmem começou a desandar quando os gols escassearam, quando as derrotas se acumularam. A gota “d’alga” (como dizia minha bisavó Clementina) foi quando um desses atletas disse, nos microfones da Rádio Caiçara AM de Campo Bom, e eu escutei muito bem, com sobriedade jornalística (cursava então o último ano de jornalismo), sentado na varanda da minha casa, no morro Cantagalo, o seguinte: (abre aspas) A vitória não veio porque Deus não quis! (fecha aspas). Há testemunhas que ouviram o mesmo. Muitas, te digo. E a notícia se espalhou como onda de Poseidon. Ainda que suado do esforço na partida, ainda que cansado do jogo, talvez um pouco fora de si (uma cabeçada meio forte no segundo tempo mas, vá lá! Nem tinha sido grave!), nada lhe dava motivos para botar a culpa em Deus. NADA! Esta pérola poderia ser borracheada dos anais do futebol. Meu amigo, eu te pergunto: pra que o infeliz foi cagar uma blasfêmia destas?
(Adendo: Futebol e religião, duas paixões nacionais. Futebol e religião não se discutem. Misturar religião ao futebol para justificar erros e acertos é dar de bico no santo.)
O que seguiu-se foi o natural ódio e rancor da torcida contra tais jogadores, contra o clube, contra os dirigentes, contra o quero-quero da goleira norte, e, não menos importante, contra evangélicos, missas e (pasmem!) contra o próprio Homem, o tal Cristo. Eu, inserido no meio, e cobrindo a situação de modo jornalístico, não mais passional, tirei conclusões óbvias. Torcedores são acéfalos, horda que se movimenta em ondas e junto ao rebanho que veste a mesma camisa. Da alegria à revolta em questão de minutos. Não existe discernimento nessa polifonia de emoções. Já em vias de formatura, elaborando meu trabalho de conclusão de curso em cima deste assunto, tentei colóquios com o alto clero do jornalismo desportivo rio-grandense. Pouco sucesso. O Santana falava de ereções e prostitutas (ainda não havia Viagra na época), completamente fora de si. Voltando. Padres e pastores então tentavam acalmar seus rebanhos mais exaltados. Colocaram fogo até em cruzes de madeira, em encontros das torcidas organizadas (sempre elas...). Os domingos se tornaram paradoxos que nem Marx compreenderia: fé e louvor pela manhã, nas igrejas; gritos blasfemos e possessões à tarde, nos estádios. Marquinho, líder da torcida Jovem, foi visto num batuque do Morro Santa Tereza. Casas de orixás da Voluntários tiveram acréscimo na venda de estátuas de Exu. Tudo para correr com aquele mal que contaminava o time, chamado “Atletas de Cristo”.
Um dos jogadores que fazia apologia ao cristianismo atlético, na época, era um menino de nome K, “a gazela evangélica do Morumbi”. Bom de bola, o garoto. Porém, a cada gol, levantava os dois indicadores ao céu e, com cara de adoração humilde, orava “obrigado, papai do céu, pelo gol. Obrigado Deus por meu pai ter me alimentado com sustagem, ovomaltine (cada lata custava uma fortuna), por ter uma casa com piscina, jardim e carro importado na garagem”, etc. Entretanto, tinha talento (nascido com ele, não comprado), ao contrário das bestas da Azenha que, de tão cristãos no útero materno, nasceram com o dom da derrota. Menos mal para o menino que cultuava o pandeiro, o único a ter sucesso naquele time. 
No ano seguinte uma limpa foi feita, e os mais exaltados cristãos foram corridos do time. Aqui é raça, vivente, sangue nos olho! Mas a vingança divina não tardaria a chegar...

(segue, e sujeito a edições)

sábado, 26 de janeiro de 2013

Chita



Por mais que os microprodutores rurais estejam certos em suas reivindicações, e por mais que o governo diga que investe, investe sim na agricultura familiar, na produção de orgânicos e nos chiqueirinhos de subsistência, mesmo assim, com a palavra honrada do ministro, com cursos de capacitação oferecidas pela EMATER, apoio científico e pesquisa oferecido pela EMBRAPA, e com dezenas de medidas provisórias assinadas, com foices e enxadas erguidas diante do congresso nacional, com músicas e discursos calorosos, com gente humilde pagando fortunas por uma garrafa de água naquele sol escaldante do planalto central, após dias de viagem em ônibus sem ar-condicionado, tudo em nome da luta, tudo em nome do plantio em pequena escala e do alimento saudável, apesar de todo esse movimento em torno da causa, apareceu uma vaca no meio do caminho.
Tomazoni, conduzindo uma carroça, puxado por dois baios, não pode continuar. Ao seu lado esquerdo, uma ribanceira de dar medo. À direita, um gigantesco paredão de pedra, com galhos e cipós tentando fugir da dureza mineral. Estrada interditada, acidente na pista, obras a duzentos metros, a placa da concessionária não falava nada sobre vacas no meio do caminho. É culpa do governo, estas licitações mal fiscalizadas. PEDÁGIO A 1.000 METROS.
Uma vaca no meio da estrada de chão. E já não se pagam impostos suficientes?! Mais essa agora... Uma vaca. Poderia voltar, quem sabe? Olhar para trás, meia volta, retornar. Nunca! Em frente, sempre em frente, pro diabo quem desiste, porca madona! Tomazoni não se mixava por pouco. Uma vaca. Mascando capim, olhando com arrogância. E, atrás da vaca, com masculino ar de superioridade, impondo chifres ao céu e autoridade de território ocupado, nenhum boi.
Abandonou a carroça, os cavalos, toda a carga de produtos perecíveis de origem 100% orgânica, e subiu por um cipó. Único caminho digno. Poderia ter levado um tomate, poderia, mas... Já que não se vai por terra, é por transporte aéreo mesmo. Calejando a palma, cortando polegares, armazenando seiva sob a unha, rasgando o rosto, coçando a pele. Foi assobiando “Sad but True”, do Metallica, e a taxa de embarque era uma mentira bem contada. Por quem, isso já não se sabe. Força nos braços. Só a roupa do corpo e uma bolsa de couro cru, estonada, nenhum excesso de bagagem.
No fim do cipó, um tronco grosso. Podia-se construir uma casa nele. Firme, indiferente. E a vaca mascando capim, soprando cuspe, tentando uma bola Ploc sabor tutti-frutti, olhando o anão com pálpebras de interrogação, analisando de modo campeiro aquela realidade diminuta (lá no casebre ao longe, fumacinha saindo do telhado e arroz-carreteiro no fogão à lenha). Nada menos do que dezessete borrachudos trouxeram cataporas esporádicas pelos calcanhares e pescoço. Foi acusado de sarampo. Outros o acusaram de lepra (e coisas piores). Mantido em quarentena, julgado, convocado a prestar esclarecimentos no castelo. Como já fora herói, prestando importantes serviços militares, teve o caso arquivado e liberado. O processo correu mais rápido do que o Green Card do John Lennon.
Para Tomazoni, aquela vaca intencionava compor uma bossa-nova new millenium onde cantaria que "isso não vai em mim, não vai em mim, não vai". Algo despreocupado e bunitim, sem diarreias e impactações, que cantasse essa nova alegria do povo, onde "aaaaaaa felicidade quando empresta vem à mesa, com tela plãããã-naaaaaa". Zen cristão neopentecostal, nossa alegria, em casa, lar doce lar, sofazim, comigo assim tranquilo e só comigo, só comigo, só eu, só meu umbigo comigo, agora. Tomazoni intencionava um costelão doze horas, e leite para a horta de radicci.
Voltando. Em meio aos cipós e ramagens e galhos que guardam folhagens e espinhos, às vezes, e sem falar das formigas e lacraias, cabeludos e larvas, e esporos e fungos e doenças da pele vegetal, verrugas que creme nenhum pode curar, desbrava um declive sem terra de volta ao chão, solito e sem bagagem, por trás da vaca, diante do rabo abanador, onde não existe queixa ou desagrado, submundo dos carrapatos inalcançáveis, no anti-tumulto social desta geração (aqui e agora nada acontece, nada acontece). Eis que surge um macaco, quase invisível, modesto em seus gestos de autopromoção, coçar do pelo com finalidade de antimerchandising pessoal, enfim: quieto. Logo tomaram amizade: Tomazoni e o macaco nu. A metáfora de Gaia em formato corpóreo. O sol indiferente se escondia entre as nuvens (e foi quando soprou um vento gelado). O macaco amigo tentava arrancar as bolachas Maria da gibeira de Tomazoni, não tinha escrúpulos.
Uma vaca no meio do caminho. Uma vaca atrás de Tomazoni, que caminhava tranquilo de mãos dadas com o macaco.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Pão Nosso de Cada Dia


Abri os olhos e quedei-me sentado em um banheiro químico. Atônito. As paredes de plástico queimavam, o sol lá fora não desistia. Sim, o próximo passo seria levantar, afivelar o cinto, destravar a porta e sair, mas, antes, algumas considerações pudicas que muito excitam os concursos nacionais e seus jurados e demais afins.
Sozinho como uma araucária em Recife. Procuro uma janela para me compadecer dos outros lá fora, com uma chuva fina escorrendo no vidro, observando as caras sem rosto em calçadas sujas, as cabeças despencadas em passos que se arrastam, já que o fim de tarde sempre me trouxe uma enorme melancolia asfáltica nesta pequena quitinete centro-urbana em que sobrevivo, e é disso que eu estou falando. Epifanias de cor azul by Pfizer, se é que ganharei alguns pontos com o intuito. Ou gozos. Conjunto lírico, aliás. Aquele ali, de nome "C", gostou (tá balançando a cabeça).
Nunca descobrirei do que é feita a solução química depositada no fundo do buraco, também chamada de substancia desodorizante a 5%. Um mistério. Não sei sua cor, nem se é caustica ou ácida, também não sei se tem pra vender na Disapel da quinze. Deve ter. O importante é que ela evita a proliferação bacteriana e suaviza o odor forte, mas chega de biologia! Os supracitados não tem capacidade intelectual de julgar tais afirmações cientificas em prosa ficcional e o pão nosso de cada dia, depois de morto, causa asco, e rancor, ainda que desodorizado a cinco por cento depois do flopt.
Agora, a gralha-azul (tem um chorinho de viola pra acompanhar?). De índigas penas, ave símbolo de nossas plagas, és a mais bela de nossos pinheirais. Inocente, tímida. Que pavarótico canto tens tu, que puccinicas notas alcança, derrete os corações mais rochosos e semeia a harmonia entre os discursos, equalizando brados e sussurros. (Será que eles usam carimbo na capa dos selecionados? Ou jogam para o alto e pegam no ar, como fazia a Xuxa no sorteio das cartinhas?).
O papel acabou e retiro o rolo vazio para doar à reciclagem (sou um homem educado, entretanto). Achato, dobro, coloco no bolso. O calor aumenta lá dentro. Vou minimizando a diarreia com conversas e afagos circulares sentido horário em volta do umbigo. Respiro fundo. A diarreia parece ser uma falácia, já que o narrador é desonesto. Sento, pois estou cansado, é isso. Respiro fundo. Poderia ser no Louvre, no Morumbi, na amurada do Layde Gomes, sentido Parintins-Manaus. Mas não. Pela glória dos céus, alegra-me as pupilas o interior de um banheiro químico. Giro o trinco e abro a porta. Uma vasta plantação de soja, a perder de vista. Sem me levantar, com enorme dificuldade, puxo a porta com o pé e fecho novamente. Acho até mesmo que vi uma picape levantando a poeira do horizonte, por isso terei pesadelos. A imensidão do campo me aliena, prefiro a cabine. A originalidade moderna do plástico pré-moldado, a caixa de detritos lá fora, dezenove litros de água para um de solução desodorizante (Amigo! Amigo! Já não mandei parar a porra do chorinho?!). O buraco bem projetado em que descansa minhas nádegas, e não me vou. Ficarei. Vou esperar sentado o caminhão com a bomba de sucção aspirar todo o detrito. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Disk-suicídio


Tomazoni, nosso atemporal soldado-anão das aspas bem citadas, agora trabalha num disk-auxílio.
- Tele-suicídio: aqui você olha para baixo, e a gente dá o empurrãozinho. Boa noite. Em que posso ser útil?
- Eu quero morrer...
- Sim, e teria outra razão pra nos ligar? Você se acha especial porque quer morrer? Quantos esclarecidos não me ligam toda a noite querendo o mesmo, hein?
- É, acho que comecei mal... É que decidi isso faz 5 minutos. Antes eu estava colocando minhas desilusões no papel, pensei em publicar um livro até e...
- Onde você se encontra agora, infeliz criatura?
- No meu apartamento.
- E seu apartamento no centro antigo tem um colchão no piso de tacos que lhe serve de cama? Terminou recentemente uma relação amorosa com uma bela mulher? Trata um gato de rua como seu melhor amigo? Se masturba pensando na subversividade do gesto diante da mediocridade social imposta?
- Isso! Como você sabe? E, ainda por cima, eu curso Letras!
- Perfeito! Então publique seu livro em primeira pessoa, seja chamado para grandes eventos culturais, desenhe quadrinhos e jogue vídeo-game. Um escritor medíocre de sucesso é melhor do que nada... E, depois de tudo isso, e somente depois de tudo isso, volte a me ligar. Todo escritor hype, depois de morto, vira objeto de cult.
- Nossa, eu até tenho o David Foster Wallace na parede do quarto...
- Perfeito, garoto! Já está entrando no clima dos sete palmos subway style, tá ligado?! E pra seguir em frente, o que te mínguas, índio véio?
- Não... 
- Não?
- Não...
- Não?
- Não... Eu quero morrer hoje...
- Sábia decisão! Vamos então à parte prática: já colocou o Unplugged do Nirvana pra tocar?
- Sim, tenho o vinil.
- Ótimo, um vinil sempre deixa o suicídio mais indie-vintage descoladinho. Orgulho de você, garoto! Já abriu o gás do forno e enviou a cabeça dentro?
- Botijão está vazio.
- Cazzo! Mas vamos lá... Desligue o Nirvana, já que você não vai atingir ele mesmo, certo? Hehe, sacanagem... Tente outro álbum. Hum... Tente o Hail to the Thief, do Radiohead. E abrace um livro da Zibia pra partir bem acompanhado. Têm eles aí?
- Sim. Mas... Você me espera? Não vai desligar? Promete?
- Claro que não, garoto! Minha função é te ajudar “a ter a pá de cal sobre suas veias”.
- Bonito isso, vou anotar. Quem foi que disse?
- Um cara lá da Cracóvia.
- Hã... já volto.
(...)
- Tô aqui.
- Continuemos, pois. Tu queres uma morte rápida ou uma morte lenta, “morte triste, dolorida”, como já dizia Teixerinha.
- Teixerinha?! Ãã... Acho que quero uma morte lenta, eu quero sentir a dor da espera em minha rubra seiva vital nesta madrugada que cai lúgubre e...
- Tá bom, tá bom, chega de clichês, deus do céu! Cacete... Como amo meu trabalho! Faz o seguinte: engole dez Mentos e vira um litrão de coca-cola. Dá cinco cambalhotas e faz a oração da cabra-preta, depois chama o Samu pra recolher. Tá compreendido, hein ôô...
- Vou lá buscar, pera só um pouquinho.
(...)
- Voltei. Mas... Podemos conversar um pouco antes de...
- É seu direito, guri. Qual é sua orientação polítca?
- Sou esquerda. Toda a galera da facul é esquerda. Meu pai diz pra eu votar nos tucanos, e eu sempre voto nos tucanos, pois os tucanos sim que fazem uma oposição mais inteligente que os socialistas. Neo-liberalismo é a melhor esquerda que existe, até porque...
Tá certo, ta certo... Garoto esperto, hein! Agora vira as cambalhotas. E come um doce, come um doce.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Parábolas de Auto-ajuda que O Mago Nunca Colocou em Seus Best-Sellers


Durante os testes, o cavaleiro ordena que Tomazoni catapulte o norte. É por lá que os venezianos nos atacam, é lá que deveis treinar a sua mira.
Tomazoni adota outras perspectivas. Outros ângulos. Sempre adotou. Suas regras se opõem às regras do castelo.
Trinta graus direita. Nove horas. Dezessete graus. Doze horas vá lá, por que não, às vezes? Gira para um lado. Gira para outro. Coça o queixo. Sua criatividade é sua arma mais segura.
Vira a catapulta sentido contrário. Seis horas. E arremessa. A pedra voa por sobre a muralha sul do castelo. E mais outra. E mais outra. O cavaleiro grita, esbraveja. Ao norte, homem, ao norte! Crateras são abertas nos campos do sul.
Meses depois um espião inimigo cavalga na madrugada por aquelas bandas. O cavalo cai num buraco, ele quebra a clavícula. É preso e mandado de volta como contra-espião (o pagamento seria em anchovas mensais).
Inverter a perspectiva, Tomazoni diz, é deixar de ver com os olhos do outro.

A subjetividade é a única verdade. (Kierkegaard)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Relatos da Corte nº 05

   Então, certa feita, apareceu um maluco no castelo dizendo querer unificar toda a Itáglia. Tomazoni, nosso anão-herói de sabedoria piemôntica, desconfia, coça a nuca soltando um "cazzo" baixinho. O excêntrico tinha a voz do Thiago Lacerda, os olhos do Thiago Lacerda, o nariz do Thiago Lacerda, e quando uma brisa esvoaçava sua longa cabeleira, ele abria um sorriso colgate para um retratista inexistente, olhava para trás em movimento slow-motion e dizia ANDIAMO, ANITA, ANDIAMO! Uma cara alegre, no más.
   Tomazoni, assessor especial para assuntos políticos deveras pós-modernos, alerta o duque com a altiva sugestão de trazê-lo diante de toda a corte reunida. Deixe o maluco falar, ó altíssimo! (o duque media um e sessenta e cinco).
   O modo como o viajante chegou a Curitizábria levantou suspeita: de navio. Mas acontece que Curitizábria não tinha mar, nem lagoa, tampouco rio ou qualquer arroio de merda. O navio veio puxado por uma manada de bois, cavalos, jumentos e capivaras. 
   Diante de toda a corte reunida, nosso herói-anão questiona o visitante. Como assim, unificar? E o que será das guerras, das traições, conchavos, e o roteiro do Game of Thrones? Nada mais belo do que o brilho prateado de uma espada. Sem saber o que responder, o rapaz com orelha de Thiago Lacerda, queixo de Thiago Lacerda, barba de Thiago Lacerda, cujo cabelo ondula ao menor sinal daquela corrente nordeste que sempre sopra no salão do castelo, abre um sorriso Gessy para uma foto deveras longe de ser inventada e vira a cabeça em câmera-lenta sonorizada pelo técnico da séria “A Mulher Biônica”, e diz ANDIAMO, ANITA, ANDIAMO!
   Tomazoni sussurra no ouvido do duque que aquele barco parado lá fora o fez lembrar a cena final da peça Tróia, aquela do cavalo de madeira. O rascruvinhador, raposa velha e astuta, querendo mostrar seus conhecimentos literários, pergunta: de qual vos dizeis, meu nobre anão? Do livro ou da peça? Pois o livro veio bem antes, dos tempos gregos, e narra as aventuras de Helena, Aquiles, e de Ulisses! Não conheceis tal tomo?, e dá um sorrisinho mal escovado pela Flex-A Carioca. Tomazoni não perde o rebolado: Ora, ora, falo da peça! Nem sabia que haviam feito um livro da peça! Bando de plagiadores. E vós só podeis estar falando daquele livro estúpido, que narra as vinte e quatro horas de um saxão bêbado! Fique sabendo que Molly é o nome de uma puta em Firenze que já deu pra metade da cidade, e a outra metade só não comeu porque é mulher, criança ou afeminado. Fluxos de consciência o levem, e cale a boca. Tomazoni atira jujubas no rascruvinhador, e esse as recebe de boca aberta.
   Voltando ao rapaz idealista, este já tinha dado no pé. Mas foi recapturado. E teve o dedinho do pé cortado por conspiração.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Pedras Vermelhas não Estragam o Salto Agulha


E, fechando o manual do carro novo, recém adquirido, vi que estava em Marte. Não me incomodava, junto ao estômago, as imprecações dirigidas ao botão do ar-condicionado, que teimava em não refrescar. Havia comido uma maçã e isso, segundo Jó, era bom. Talvez devesse ler melhor a página trinta, onde dizia que o motor deveria estar ligado. Girar da chave, primeiras tentativas, e nada. Bancos macios, painel com cheiro plástico, um rádio que não sintonizava Michel Teló, benza Ares! Motores a ignição não funcionam num planeta onde impera os frutos dióxidos atmosféricos de uma civilização altamente industrial movida a combustível fóssil, eu deveria ter aprendido isso no último Enem. Agora era tudo pó vermelho, já que a crise econômica chegou aqui via robô Opportunity, e o Eiki Batista não tinha nenhuma  culpa nisso, nem a Andrade Gutierrez.  Abri uma lata de guaraná fruki, e a mesma  estava quente.
Tons cobres, terra vermelha como a zona rural de Jaguapitã, e não estou cometendo um eco de linguagem. Rapidamente pensei numa sandália prata com strass, ainda que o prata não esteja na moda (e não tente convencer uma curitibana a não usar prata, nunca!). Uma Barbarella vestindo maiô de couro preto, cabelo alisado penteado para trás, segurando uma pistola com silenciador, fazendo beicinho, se é que o robô Spirit ainda não tenha coletado esta amostra e dissecado para pesquisas. Um enxame de bactérias comedoras de arsênico liberou-me conjecturas sobre o pagamento (ou não) do IPVA. Em qual banco? Qual o final da placa? Nem placa tinha! A vendedora da concessionária  perguntou Que letras você quer? Nunca pensei em letras para a placa. Se eu fosse gay poderia ser GAY, se fosse cristão poderia ser FEE, ou com uma BMW nas mãos seria BMV (me lembrei de quando o brasileiro não conhecia a letra W e dizia “dobrevê”, isso foi décadas antes do advento do Windows). FUK. Ao invés de me oferecer letras, eu poderia ganhar um desconto, um cooler, um guarda-sol de lona grossa anti raios UVA/UVB. O robô Spirit fotografaria o auto sem placa andando pelos Valles e mandaria direto pro DETRAN, via fax. Canaletas já existiam, só faltavam as ciclovias e os biarticulados. Minha vó falava dobrevê.
Abri outra lata de guaraná polar, estava ainda mais quente. Morreria sufocado. Caso abrisse a janela, mais sufocado ainda. CD do Carrapicho tocando. Vermelhou, o curral. Bimbolar os dedos no guidón. Boi bandido, boi caprichoso. Vaca foi pro brejo, atolou. Massagem facial no espelho retrovisor  (técnica ensinada pela Xuxa no Esquenta). Respirar o resquício de oxigênio do carpete. Sentir uma ponta de culpa, já que vou perder mais uma sessão de terapia, e não há shopping center que cure a insignificância de nascer e puxar a descarga do vaso. Pense como um marciano, aja como um marciano. O cobre nunca sai da passarela do fashion Rio. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A Lenda de Tomazoni


A principal função de Tomazoni no castelo era ficar na amurada esperando as pedras da catapulta. 
A posição era fundamental, deveria ser em ângulo reto com a trajetória da bala. Então ele esperava, esperava, esperava, e quando faltavam poucos metros pra atingir deveria gritar MERCADO!, ou CASA DE ARMAS!, ou PÁTIO!, e se jogava pro lado. 
Tomazoni era um anão. 
Talvez esse detalhe não tenha crescidas importâncias, porém, do ponto de vista militar, ajudava a evitar acidentes e perdas mais graves para a infantaria do duque de Curitizábria, agregado do Ducado de Milano, parceiro comercial de Ferrara, obediente ao Papado de Roma, colega da Córsega no torneiro de truco e testemunha dos sicilianos no rebaixamento da Juventus em 06. Ano passado uma bala tirou o dedo médio de Tomazoni, mas isso foi tratado com desdém, já que era um dedinho insignificante. Bateu um vento forte nas costas e desviou a trajetória da pedra. Levou umas horas pra tirá-la de cima de Tomazoni, coitado, mas deu tudo certo. E isso trouxe ideias pro exército inimigo...
Um tal de Da Vinci foi contratado a peso de ouro pelos venezianos (aqueles anfíbios!), e inventou catapultas mais modernas, o que fez Tomazoni prestar queixa no Sindicato. Na primeira batalha, gritou GALINHEIRO e caiu na capela da plebe. Na segunda, a pedra lhe tirou a orelha direita e parte do rosto. CORNO, VIADO, gritava Tomazoni, sacudindo a única mão que ainda lhe restava. Da colina, Da Vinci dava risadinhas. As pedras viravam jabulanis nas catapultas de Da Vinci, eram quase teleguiadas. Uma vez Tomazoni correu por toda a amurada, e a pedra ia atrás, dando petelecos na única orelha. Claro que o Sindicato não acreditou nessa história, e negou a demissão. AGORA É PESSOAL, gritou o pobre anão. Quando só lhe restava o tronco, o pescoço e parte da cabeça, Tomazoni chamou sua prima, uma gorda de cabelo seboso. Ela veio, pegou-o no colo, e encheu de beijinhos. Tomazoni deu o endereço de Da Vinci e disse VAI LÁ E PEDE UM AUTO-RETRATO. O cientista inimigo nunca mais deu o ar da graça no campo de batalha. Seu exército, burro, fazia as pedras caírem na própria cavalaria e até no lanceiro de Covigo. Tomazoni era o herói. O povo o pegava no pátio, rastejando, e jogava para o alto, com um Tomazoni cheio de sorrisos.